sexta-feira, novembro 09, 2007

RICHARD DAWKINS E DEUS



Acabei de ler o livro de Richard Dawkins, The God Delusion, na versão portuguesa, com o título A Desilusão de Deus.

Dawkins tem razão na generalidade das críticas que formula contra as “religiões”, designadamente nas contradições que estas encerram nas suas respectivas idiossincrasias e ainda mais quando se faz uma “leitura” literal dos respectivos livros “sagrados” de referência ou suporte.

Não tem, porém, razão na defesa da improbabilidade da existência de Deus.

Colocada esta questão nos termos em que a põe, Dawkins não responde aqueloutra questão sobre a probabilidade de existência do INFINITO.

Como explicar o Infinito?

A ciência não tem qualquer explicação (que eu próprio saiba!), nem Dawkins dedica uma única linha a isso.

Dawkins apresenta-nos, como alternativa à sua “destruição” das “religiões”, o ateísmo.

Dentro do seu software (palavra que lhe é tão grata) de referência tem todo o direito de o fazer enquanto expressão da sua idiossincrasia e dentro dos parâmetros culturais das “democracias” do Ocidente (em certo Oriente arranjariam maneira de o trucidar e eliminar se usasse de tal ousadia…penso eu).

Porém, Dawkins não vai ao fundo da questão sobre a existência de Deus.

Porque não admitir a “existência” de um Criador compatível (sim, compatível) com a teoria da evolução de Darwin?

Há o Infinito que é incontornável pela nossa (e quando digo nossa, digo de todos os Seres Humanos) consciência. Por mais barreiras que ponhamos e limites que oponhamos ao Infinito, haverá sempre qualquer coisa do “outro lado” dessas barreiras ou limites.

O Infinito é o paradoxo da nossa existência.

Dizem os cientistas que o espaço-tempo só aparece com o Universo.

Dentro das causas últimas da “causa” da criação, poderíamos entrar no Infinito – em busca da “causa” primeira.

Ora, a primeira aproximação do conceito de Deus é a Causa sem Causa, o que nos reconduz à Existência Pura e sem causa.

Ora, a esta Existência Pura e sem causa, chamamos (os religiosos puros) DEUS.

Diremos que Deus É.

Sendo, esta Existência Pura e sem causa, involuiu-se em princípios inferiores da sua Essência dando origem a uma apertadíssima contracção após o que houve uma explosão.

Tudo isto é compatível com a ciência actual, que segue o modelo do Big-Bang e posterior evolução.

Ou seja, resumidamente: Deus criou o Mundo de Si e em Si.

Esta “criação” está DENTRO de SI e em SI.

Por isso Deus é Omnipotente, Omnisciente e Omnipresente e não um qualquer velhote barbudo escondido e “separado” da Criação, algures entre as nuvens ou num qualquer obscuro recôndido do Universo.

Sendo que a Evolução que se seguiu à Involução de SI para criar o Mundo, segue-se que a Evolução é absolutamente explicável e compatível com uma concepção de Deus.

Dawkins confunde ainda a “fé” com a própria idiossincrasia que a alimenta.

Vejamos:

Um qualquer ser humano reflecte intelectualmente sobre a sua existência e procura dar resposta às perguntas clássicas da filosofia:
Quem sou eu, de onde venho, para onde vou?
Se não encontrar resposta satisfatória, CONTINUA a viver e a firmar-se: é a FÉ.

A fé primordial e pura.

Para dar sentido àquelas questões filosóficas “cria” um “deus”, responsável pela sua existência.

Porquê?

Porque a generalidade dos seres humanos quer uma resposta em relação ao Infinito, à Eternidade, sob pena de cair ou na náusea da existência de Jean Paul Sartre ou no homem absurdo camusiano ou perder mesmo a fé e deixar de se afirmar.

Responderá Dawkins que ele próprio é ateu e que há muitos como ele.

É verdade. É indesmentível.

Mas Dawkins e os demais ateus conseguem “ocupar” a sua vida terrena entregando-se à ciência (o primeiro, como ele próprio diz) ou a ocupações do dia a dia que os “preenchem”, sem necessidade de Deus para nada.

O que não exclui que a generalidade das pessoas não “funcione” assim.

Estas querem a sua fé alimentada pelo sentido de “tudo”. Que lhes sejam apresentadas respostas “definitivas” quanto àquelas perguntas filosóficas já que a tendência dos seres humanos é para satisfazer a sede de conhecimento, querer saber tudo e mais alguma coisa, ou, pelo menos, respostas para a sua angústia existencial…

Nem todos, porém, têm apetência, formação ou disponibilidade para seguirem o método científico.

Nem mesmo cultura suficiente para estarem a par das descobertas da ciência.

“Preferem” uma “crença” que os “satisfaça” dentro da lei do menor esforço.

Depois, para além dos memes culturais e da evolução das “religiões” enquanto idiossincrasias, há sempre os “comerciantes” da “fé”.

Há sempre “alguém” que apresenta uma “explicação” para tudo e que preenche a “fé” dos incautos. E, depois, vai dando “respostas” aos seus seguidores e acrescentado sempre algo de novo em resposta à complexidade do mundo societário até se chegar a um caldo idiossincrático contraditório, incongruente e ilógico, senão mesmo bárbaro, que reflecte precisamente as contradições de tal mundo societário e que Dawkins, aqui sim, consegue desmascarar.

O ponto a que quero chegar é este:

Não se pode combater as “religiões” com o Ateísmo mas antes com a proposta de uma Religião Verdadeira, de conhecimento não venal nem comercializável, compatível com a ciência e a evolução e baseada em todo o saber adquirido pelos seres humanos em todos os domínios da sua criatividade, faculdades e capacidades.

É este o meu pequeno (grande) ponto de divergência com Dawkins.

Não sou ateu.

A minha construção religiosa baseia-se nas faculdades mentais, mas também nas aquisições da ciência, pois julgo que o mundo pode ser cognoscível pelos seres humanos, tal como propunha Tales de Mileto, há 26 séculos atrás.

Nunca abdicando da perspectiva religiosa, julgo que a Religião Verdadeira, na proposta que faço, abre caminhos para o método científico, como uma candeia num túnel escuro e que na sua Caminhada, a Humanidade encontrará a Verdade quando a Religião e a Ciência se encontrarem.

Aí veremos a Face de Deus.

6 Comments:

Blogger Bom Garfo said...

Não li o livro, mas depois de Russell e do "Porque não sou cristão", tudo se repete.

8:24 da tarde  
Blogger Ashera said...

Não li o livro
Não acredito em disparates
O que está dentro de nós é a verdade
Procurar uma verdade é quando se sabe dar , porque só dando se recebe.
e , se encontra a verdade!
Bom domingo
Beijos

5:35 da manhã  
Blogger victor rosa de freitas said...

De rolandoa a 16 de Novembro de 2007 às 02:52
Victor,
Passei pelo seu blog mas como os comentários estão reservados a assinates da blogspot e eu não sou, deixo aqui o comentário ao seu texto que devia ter sido postado no seu blog.

Olá Victor,
Há afirmações que o Victor faz no seu texto que podem cair na falácia de serem tão dogmáticas quanto as que o Victor acusa ao Dawkins de serem dogmaticas. Dou-lhe um exemplo, neste meu comentário que se pretende resumido. O Victor não pode afirmar "deus é" e isto porque está a retirar o a propriedade ao sujeito que o torna sujeito, que é o predicado. sem que deus tenha um predicado, não compreendemos o que ele possa ser. Só lhe faço este vago apontamento para mostrar que as afirmações do Victor também são vagas. Depois o Victor não pode simplesmente criticar as teses de Dawkins assumindo posições que, para si, são, a partida indiscutíveis. É verdade que a posição de Dawkins é, por exemplo, pouco filosófica no sentido em que assume um pontode chagada para uma discussão que não pode produzir resultados, que é a existência de deus. Mas como pode o Victor produzir esses resultados? Eu não acredito na existência de deus porque tenho razões mais plausíveis para não acerditar do que acreditar. Com que fundamento o Victor pode, entre outras coisas, afirmar que tenho de acreditar porque deus é. E se eu objectar afirmando que deus não é? Em relação ao infinito do espaço, essa é uma hipótese científica. como sabe, uma hipótese científica não é um ponto de chegada, mas de partida. Pelo que, de igual modo, não é racionalmente honesto considerar a existência de deus um ponto de chegada. E se deus não se compreende pela razão, então não lhe podemos atribuir o estatuto de universal. A questão da fé, tal como o Victor a expõe, faz-me lembrar as teses de um teólogo de Oxford que Dawkins até cita e que conheço razoavelmente, Richard Swinburn. Mas repare bem no argumento: bem, já que não temos outra explicação, mais vale ficarmos com a de deus. Ok, e os desconsolados com essa explicação? Finalmente, o Victor coloca a questão de uma forma que não posso concordar. Para aqueles que não podem ou não conseguem aprender a ci~encia, então, ok, dámos-lhe a ciência. Quererá isto significar que se todos aprendessemos ciência então eramos ateus? Boa proposta, que coincide com a de Dawkins.Mesmo a acabar: eu não sei se a religião é compatível com o evolucionismo porque não sou biólogo. A crer (não no sentido religioso) no que estudo e leio, tal compatibilidade não pode existir. Mas o problema que encontrei na minha análise ao seu texto é que o Victor limitou-se a afirmar que existe compatibilidade entre ci~encia e evolucionismo, mas não mostra como. E, assim sendo, tenho de tomar a sua apreciação como uma opinião subjectiva que não pode ser imposta a ninguém. Ainda que seja uma perspectiva da verdade, não está fundamentada pelo o leitor do Victor não possui razões para aceitar o que o Victor afirma. Estou genuinamente convencido que a existência de deus é um problema que, pela sua natureza, merece e deve ser discutido. E não vejo razão alguma para que a religião seja mais confortável para os seres humanos que muitas outras actividades. Aliás, estou mesmo convencido que existem outras formas de expressão muito mais agradáveis.
Agradeço a oportunidade de aqui comentar as minhas razões, ainda que, de forma breve.
Rolando Almeida


responder a comentário | início da discussão | discussão



De Victor Rosa de Freitas a 18 de Novembro de 2007 às 11:24
Caro Rolando:

Obrigado pelo seu comentário.

Para podermos aprofundar as questões que levanta sobre o meu comentário ao livro de Dawkins, gostaria, sem abusar da sua paciência, de lhe sugerir uma prévia leitura de um post, em seis capítulos, no meu blog, datado de 03.08.05 (http://vickbest.blogspot.com/2005_08_01_archive.html).

Trata-se de um pequeno "ensaio" que elaborei por volta do ano de 1996 e que ali publiquei.

Se o Rolando se der ao trabalho de seguir a minha sugestão, poderíamos continuar em amena conversa, evitando-se que me veja forçado a repetir palavras já por mim escritas e que facilitariam a abordagem do meu ponto de vista.

Obrigado


Victor Rosa de Freitas







responder a comentário | início da discussão | discussão



De rolandoa a 18 de Novembro de 2007 às 23:47
Caro Vitor,
Não vi o meu comentário publicado no seu blog. agradeço que sintetize a ideia ou ideias que obejectem o meu comentário e que são referidas no seu ensaio.
Obrigado
Rolando Almeida


responder a comentário | início da discussão | discussão



De Victor Rosa de Freitas a 19 de Novembro de 2007 às 18:48
Rolando:

Ao contrário do que o meu amigo afirma, designadamente com a frase "Com que fundamento o Victor pode, entre outras coisas, afirmar que tenho de acreditar porque deus é?", eu não pretendo IMPOR NADA A NINGUÉM.

Pergundo eu, então: porque será que a questão da existência ou não de Deus se transformou numa MILITÂNCIA para os ATEUS de que DEUS não existe?

O meu "ensaio", para um leitor com preconceitos, parte do pressuposto da existência de Deus. Ora, tal não é verdade. O seu "título" refere a existência de Deus e a "busca de Deus", é verdade. Mas se substituirmos a "busca de Deus" pela frase "indagando o Infinito", chegar-se-á às minhas conclusões.

Depois, dir-lhe-ei que uma coisa é afirmar a existência de Deus - a partir da indagação do Infinito -, outra bem diferente é DEFINIR DEUS.

Constato a inevitabilidade de reconhecer a existência de DEUS - sem impor nada a ninguém -, ao mesmo tempo que afirmo que o Ser Humano, nos seus caminhos "interiores e exteriores" procura conhecer Deus, trabalhando no seu "corpo",ou seja, na sua "criação", que está "dentro DELE.

Ora, o que eu defendo é que o ser humano pode, racionalmente, afirmar a existência de Deus dizendo que Ele "é", sem qualquer predicado, precisamente porque se o Homem pudesse (já) definir DEUS, seria IGUAL a ELE, o que eu defendo só vir a acontecer nos fins dos tempos.

Finalmente (para quem leu o meu "ensaio" sem preconceitos"), se, para a "criação", Deus se INVOLUIU em princípios inferiores para depois haver uma EVOLUÇÃO - tudo isto "dentro" DELE, é óbvio que a teoria da evolução de DARWIN, de Lammarck ou qualquer outro é compatível com a existência de Deus.

(não publiquei o seu comentário no meu blog simplesmente porque não me pediu, mas fou fazê-lo agora, talqualmente este meu).

Cumprimentos


Victor Rosa de Freitas

6:52 da tarde  
Blogger victor rosa de freitas said...

O último "diáologo" supra por mim referido encontra-se em
http://rolandoa.blogs.sapo.pt/54508.html?view=101356
onde poderá ser consultado.


Victor Rosa de Freitas

6:57 da tarde  
Blogger victor rosa de freitas said...

De rolandoa a 20 de Novembro de 2007 às 01:01
Victor,
O Victor devia explicar o que é isso de ler o seu ensaio sem preconceitos. É que esse pressuposto pode não passar de mais um preconceito. Então e se eu discordar com as suas ideias, sou preconceituoso?
É óbvio que existe militância pelo ateísmo, como existe pelo futebol, partidos políticos, ideologias x ou y, mas a questão da existência de deus, é-me particularmente cara precisamente porque se trata, antes de tudo de um problema filosófico da filosofia da religião. Ora, as religiões não têm por costume encarar a questão da existência de deus como um problema de natureza filosófico, pelo que qualquer versão da religião não me interessa. O problema da existência de deus prende-se também com o problema metafísico da verdade.
Tal como já está demonstrado não existe qualquer compatibilidade entre evolucionismo e criacionismo. É impossível. O evolucionismo é a versão da ciência para a explicação da criação do universo e é oposta à versão da religião, pelo que nem vale a pena comparar teorias que não tem possibilidade de comunicação.
até breve
Rolando Almeida


responder a comentário | início da discussão | discussão



De Anónimo a 20 de Novembro de 2007 às 09:11
Rolando:

O meu amigo afirma que "Tal como já está demonstrado não existe qualquer compatibilidade entre evolucionismo e criacionismo. É impossível. O evolucionismo é a versão da ciência para a explicação da criação do universo e é oposta à versão da religião, pelo que nem vale a pena comparar teorias que não tem possibilidade de comunicação."

Desculpar-me-á o meu amigo, mas há muita imprecisão na sua afirmação. Não se pode, nunca, dizer que "criacionismo" é igual a "religião". É que o "criacionismo" é apenas UMA INTERPRETAÇÃO RELIGIOSA da "criação". Ou seja, uma interpretação LITERAL da Bíblia, segundo a qual o Homem foi feito num DIA (de 24 horas), modelado do "barro" (ou argila) por Deus. Não é, contudo, a única interpretação "religiosa". Há religiosos que interpretam a "criação" bíblica alegoricamente, sendo que um DIA bíblico corresponde a milhares ou milhões de anos e que é compatível com o Big-Bang e a "evolução".

Dito isto e apenas para precisar conceitos, devo dizer-lhe que a minha defesa da existência de Deus não tem nada que ver com qualquer interpretação da Bíblia, mas apenas com a sondagem do Infinito e com o conhecimento actual da ciência. É dentro destes pressupostos que afirmo a inevitabilidade da existência de Deus.

É que há "iniciados" Religiosos que se não confundem com o "homem-massa" (de Ortega y Gasset) defensor de vulgaridades eXotéricas da "religião", sendo que os primeiros têm outra linguagem, esta eSotérica, sendo que os Ateus apenas criticam a primeira linguagem, a eXotérica do "homem-massa", e desconhecem ou parecem desconhecer a "outra", a dos "iniciados".

Finalmente e começando pelo princípio do seu último comentário, "ler o meu ensaio sem preconceitos" significa isso mesmo: lê-lo sem preconceitos. Nada mais.

Cumprimentos


Victor Rosa de Freitas



responder a comentário | início da discussão | discussão



De Victor Rosa de Freitas a 20 de Novembro de 2007 às 09:15
Rolando:

O último comentário, das 9h 11m, saiu, por lapso, como de "Anónimo" mas é óbvio que é meu e contém correctamente a minha assinatura.

Aqui fica a correcção e peço desculpa pelo lapso.


Victor Rosa de Freitas


(Este "diáologo" encontra-se em
http://rolandoa.blogs.sapo.pt/54508.html?view=101356
onde poderá ser consultado).

VRF


Victor Rosa de Freitas

9:38 da manhã  
Blogger victor rosa de freitas said...

Aconselho aos leitores interessados o excelente texto em "per-espectivas" que pode ser consultado em

http://espectivas.wordpress.com/o-absurdo-do-ateismo/

com o título "O absurdo do ateísmo".

Victor Rosa de Freitas

2:41 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home

on-line
Support independent publishing: buy this book on Lulu.