sexta-feira, outubro 16, 2026

A RELIGIÃO OCIDENTAL MODERNA…

 «A religião ocidental moderna é um conjunto de padrões sociais, ou um conjunto de ansiedades centradas numa estrutura moral particular e numa ideia de obrigação. A religião moderna raramente é uma experiência de abandono do ego. Desde a década de sessenta, a disseminação de cultos populares de transe e dança, como o “disco” e o “reggae”, é uma reacção saudável e inevitável à forma moribunda que a expressão religiosa assumiu na cultura ocidental altamente tecnológica. A conexão entre o “rock and roll” e os psicadélicos é uma conexão xamânica; o transe, a dança e a intoxicação compõem a fórmula arcaica tanto para a celebração religiosa quanto para uma diversão garantida.

«O triunfo global dos valores ocidentais significou que nós, como espécie, nos extraviamos num estado de prolongada neurose devido à ausência de conexão com o inconsciente. Obter acesso ao inconsciente através do uso de alucinogénios vegetais reafirma o nosso laço original com o planeta vivo. O nosso afastamento da natureza e do inconsciente implantou-se há aproximadamente dois mil anos, durante a mudança da Era do Grande Deus Pã para a Era de Peixes, que ocorreu com a supressão dos mistérios pagãos e a ascensão do cristianismo. A mudança psicológica que se seguiu deixou a civilização europeia perante dois milénios de mania e perseguição religiosas, guerras, materialismo e racionalismo.

«As forças monstruosas do industrialismo científico e das políticas globais que nasceram nos tempos modernos foram concebidas na época em que se despedaçaram os relacionamentos simbióticos com as plantas que nos ligavam à natureza desde as nossas modestas origens. Isto deixou cada ser humano apavorado, carregando um fardo de culpa e sozinho. Nascia o homem existencial.

«O terror de existir foi a placenta que acompanhou o nascimento do cristianismo, o culto definitivo da dominação pelo ego masculino irrefreado. O abandono dos ritos de dissolução do ego através das plantas visionárias permitira a transformação daquilo que tivera início como um estilo desadaptado na imagem orientadora de todo o organismo social. De dentro do contexto de um crescimento descontrolado dos valores dominadores e da história contada segundo um ponto de vista dominador; precisamos de voltar a atenção para o caminho arcaico das plantas visionárias e da Deusa.»

(In “O PÃO DOS DEUSES”, de Terence Mckenna, TALENTO, págs. 99 e 100)

Benavente, 16.10.2026

- Victor Rosa de Freitas -



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