domingo, agosto 23, 2026

O MITO DO HERÓI...

 «MOYERS: Porque é que na mitologia há tantas histórias com heróis?

«CAMPBELL: Porque é sobre isso que vale a pena escrever. Até em romances populares, a personagem principal é um herói ou uma heroína que encontrou ou fez alguma coisa para lá das capacidades comuns. Um herói é alguém que seu a vida por qualquer coisa maior do que ele.

«MOYERS: Em todas estas culturas, seja qual for a roupagem local que ele esteja a envergar, qual é a ação do herói?

«CAMPBELL: Bom, temos dois tipos de ação. Uma é a ação física, em que o herói pratica um ato de coragem numa batalha ou salva uma vida. A outra é a espiritual, em que o herói atinge o nível supranormal da espiritualidade e regressa com uma mensagem.

«A aventura habitual do herói começa com alguém a quem foi roubada alguma coisa ou que tem consciência de que falta qualquer coisa nas experiências normais disponíveis ou permitidas aos membros da sua sociedade. Essa pessoa lança-se então numa série de aventuras extraordinárias, seja para recuperar o que foi tirado seja para descobrir um qualquer elixir da vida. É geralmente um ciclo, uma ida e um regresso.

«A estrutura e uma parte do sentido espiritual dessa aventura podem já ser encontrados em rituais de iniciação ou puberdade das primeiras sociedades tribais, através dos quais uma criança é obrigada a deixar para trás a infância e a tornar-se adulta – podia dizer-se que obrigando a sua personalidade e psique infantis a morrer e a regressar sob a forma de um adulto responsável. É uma transformação psicológica fundamental pela qual todos têm de passar. Na infância encontramo-nos numa situação de dependência, sob a proteção e tutela de um adulto, até aos 14 ou 21 anos – e, se formos capazes de fazer um doutoramento, isto até pode continuar até aos 35. Não tem responsabilidades, nem liberdade, é-se um menor obediente que espera e recebe punições e recompensas. Para sair deste estado de imaturidade psicológica e adquirir a coragem da responsabilidade e da segurança de si é preciso morrer e ressuscitar. Esse é o tema básico da viagem universal do herói – abandonar um estado e descobrir uma fonte da vida que lhe permita aceder a um estado mais rico ou maduro.»

(In “O PODER DOS MITOS”, de Joseph Campbell com Bill Moyers. lua de papel, págs. 199 e 200)

Benavente, 23.08.2026

- Victor Rosa de Freitas - 



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